quarta-feira, 27 de novembro de 2013


Saudade
Hoje eu acordei com vontade de te ver, de sentir suas mãos me fazendo carinho, seu olhar me prometendo mil coisas, sua boca me dizendo doçuras. Eu só desconfiava que saudade doía, não só na alma, essa eu já tinha sentido, mas no corpo também.  Dói o peito e a garganta, parece um nó lá dentro, chega a dar falta de ar. Será que era assim que os poetas morriam de amor? Porque se for, não era de amor, era de saudade.

 Saudade que você nem sabe o que significa, então talvez por isso não sinta, só sinta falta e falta não é saudade, saudade é maior, mais intensa, dolorida, como eu pude provar. Até parece um buraco, que só vai ficando mais fundo, até que a sua presença preencha, inunde, transborde e eu me afogue no que eu sinto por você.

terça-feira, 5 de novembro de 2013


Livre

Sete horas da noite de uma sexta-feira fria em São Paulo. Depois de uma semana exaustiva, a sensação de liberdade invade sua mente. O que fazer? Para onde ir? Ela se delicia em pensar que pode ir para onde quiser, fazer o que quiser, com quem quiser sem dar satisfações. Não há nada mais poderoso do que essa sensação e esta noite ela se sente poderosa, com sua jaqueta de couro, batom vermelho e salto alto.

Anda pelas ruas com um leve sorriso no rosto e atrai todos os olhares, os homens a desejam e as mulheres a admiram. Crianças a observam curiosas, quase que hipnotizadas por aquela boca vermelha e aquele balançar dos cabelos. Ela se dá conta feliz de que não tem uma dessas adoráveis e barulhentas criancinhas para cuidar, afinal cuidar dela mesma já dá trabalho o suficiente.
 

Mais alguns passos adiante e quase esbarra em um casal de adolescentes que se beijam apaixonadamente. Ela sorri, balança a cabeça e pensa em como são tolos por acharem que podem morrer de amor e que vão se amar assim pra sempre. Ela até gostaria de se sentir tão apaixonada a ponto de achar que é para sempre, mas há muito que não conseguia ter este sentimento. Sabia, da mesma maneira como sabe que o sol vai nascer amanhã, que aquele sentimento não durava, que uma rotina cheia de intimidade excessiva e pouco romantismo acabaria matando a paixão e a vontade de estarem lado a lado e sem que soubessem como, chegaria o momento em que seriam apenas bons amigos ou não se suportariam, mas definitivamente, não seriam mais namorados. Uma pena. Ela queria que todos os casais fossem como aqueles adolescentes.

Continuou sua caminhada, ainda sem destino certo. Talvez encontrasse alguém especial esta noite, talvez até se apaixonasse, não pra sempre, só por hoje.

sábado, 2 de novembro de 2013


Soco no estômago

Suas palavras me atingiram como um soco no estômago, senti meu coração parar por alguns segundos e eles pareceram eternos, sensação de morte, de ver a vida passar pelos seus olhos. A vida não, mas a curta parte dela em que estive com você. Será que você tem noção disso? O pior é que eu queria tanto te odiar, queria que você fizesse algo maldoso, infantil, idiota, só pra eu poder falar que eu estou melhor assim sem você, que eu vou encontrar uma pessoa melhor.

 

Agora só ficou a tristeza e a saudade, um aperto no peito cada vez que chega a hora que eu estava acostumada a falar com você, um sentimento de não saber o que fazer comigo. Mas a cada dia eu recolho um pedacinho meu, perdido por aí. Vou colar tudo de volta, como eu sempre faço, já fiz mil vezes, você não é o primeiro a me magoar. Só que é bom que você saiba, que eu sempre colo diferente, nunca fica igual, nem quero que fique, por isso, quando você me encontrar qualquer dia desses, não vai me reconhecer, não serei mais a mesma que te queria loucamente, talvez nem te ache mais tão divertido assim, nem tão bonito ou bom de cama...

Mas eu detesto histórias mal resolvidas. Então não se surpreenda se eu aparecer aí daqui alguns anos, só pra ter certeza que eu não te quero mais e principalmente, que você não me quer mais. Porque eu ainda duvido...

Sou eu quem você quer

Então é assim? Você não me quer mais... seria trágico se eu não soubesse que assim que passar essa empolgação por uma nova pessoa, você vai voltar correndo, cheio de saudades, louco de desejo. Sim, seria triste, se eu não tivesse certeza de que na primeira vez que você fizer sexo com ela, você vai pensar em mim. Vai lembrar de nós, de como somos bons juntos, de como nossos corpos se entendem. Por isso fico aqui bem calma, aguardando pela reprise, daqui um mês, dois, seis?
 

Mas confesso que ainda me surpreendo vendo você se afastar assim, quase que fugindo, tentando provar que não gosta tanto assim de mim, tentando desesperadamente se apegar a alguma outra pessoa que pode ter tudo a ver com você, mas não te faz tremer por dentro, nem desejar ardentemente sentir o cheiro, tocar a pele, o sexo. Isso te assusta não é? Assusta porque você não controla, assusta porque é tão intenso que você não consegue frear.

E vai ser até engraçado se um dia nós três nos encontrarmos. Será que ela vai sentir a tensão sexual entre a gente? Será que você vai conseguir disfarçar? Tenho certeza de que ela te trata com amor, mas ela consegue ser mais safada do que eu? Ela vai querer satisfazer todas as suas fantasias? Ou você não teve coragem de contar pra ela? Eu sei o que eu vou ter vontade de fazer se este dia chegar e ao contrário de você, não tenho medo de admitir, eu vou querer te deixar louco, explodindo de tesão, você sabe que é disso que eu gosto, quanto mais eu vejo você me querendo, mais eu te quero. E também vou querer dizer a ela: queridinha, quando ele trepa com você, é em mim que ele pensa.

sábado, 6 de julho de 2013

Meia Idade

Não, ele não queria voltar para casa e encontrá-la ali. Recusava-se a ouvir as mesmas reclamações, os mesmos comentários. Sim, todo dia era igual, terrivelmente igual, entediantemente igual. Ela o esperava em casa com seu corpo cheio embrulhado em um pijama velho e largo, lhe recebia com um toque de lábios, toque mesmo, toque rápido, porque aquilo nem se parecia com um beijo. Os cabelos desgrenhados, as unhas por fazer e o cheiro de alho nas mãos. Evidências de que ela havia passado o dia cuidando da casa e havia acabado de preparar o jantar.
 
 
Deveria se sentir feliz em ter em casa uma esposa que se preocupava com seu bem-estar e lhe preparava uma boa refeição. Uma boa mulher, como diriam alguns e afinal, na idade dele, o que mais poderia querer? Mas não, não estava feliz, estava inquieto, surpreendia-se sentindo inveja de casais se beijando na rua e das conversas dos estagiários que contavam suas aventuras amorosas. Quando foi que eles deixaram de se tocar? Em que momento ela parou de se enfeitar pra ele? Por que não passeavam, não planejavam, não viviam?
Gostaria de voltar no tempo, perceber estes sinais, lembrar da primeira vez em que não teve vontade de encontrar com a sua mulher. Talvez ali, naquele momento, poderia ter mudado o rumo do relacionamento, poderia ter feito força pra voltar a sentir vontade de vê-la, de levá-la pra jantar, de fazer sexo na mesa da cozinha.
Mas agora era tarde, sentia-se morrendo aos poucos, não passava de um velho. Talvez ela sentisse o mesmo, ela deveria sentir o mesmo, mas não deixariam que isso transparecesse, Levariam a vida assim, sem surpresas, como era de se esperar e como os outros esperavam que fosse.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Pele

Pele

 

Seria possível congelar aquele momento e guardar em algum lugar concreto a visão daquele corpo de Adonis? A memória não era confiável e ela queria se lembrar daquela cena pela vida toda. Queria poder rever os detalhes, os músculos do braço, o abdome definido, queria fazer uma estátua instantânea daquele torso.


Por um momento ele lhe pareceu uma escultura de Rodin, mas como vestia cueca, e era moderna demais, ela imaginou que estava diante de um anúncio de cuecas e quando ele colocou o jeans, sua imaginação a levou para um comercial do jeans mais descolado do mundo! Daquele tipo que tem os modelos seminus com cabelos molhados e olhos apertados para a câmera...
Na euforia daqueles pensamentos e ainda tentando descobrir uma maneira de parar o tempo, duas palavras se sobressaíam: Eu mereço! Era isso que sentia, que merecia ter sido possuída com vontade por aquele deus grego materializado, que merecia sentir toda a rigidez de cada músculo daquele corpo.
Era irresistível aquele sentimento, era só olhar pra ele que todas as células do corpo dela tremiam eufóricas, todas pedindo a pele, os poros, o suor dele. Se ficassem em silêncio poderiam ouvir o chamado ardente de cada pedacinho dela. E mais uma vez ela o apertou contra si, só pra sentir que não estava sonhando e para se inebriar um pouquinho mais com o cheiro e o toque daquela pele.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Reencontro


Rever Miguel rapidamente despertou a vontade de encontrá-lo mais vezes, sentir novamente seu cheiro, sua pele, seus músculos, seu gosto. E agora que isso estava próximo de acontecer, ela se sentia ansiosa ao extremo. Ao descer do carro em frente à casa da amiga, checou mais uma vez o visual através do vidro da janela. Estava linda, pensou, com um short jeans que mostrava suas belas pernas, uma sandália de salto que disfarçava bem a sua pouca altura, uma regata branca com um decote sensual que deixava à mostra boa parte dos seus seios fartos e uma camisa xadrez azul displicentemente jogada por cima da regata. O cabelo liso e repicado nas laterais caia com graça por cima do ombro. Estava pronta, e pela quantidade de carros do lado de fora, deveria ser a última a chegar ao churrasco à beira da piscina. Colocou um sorriso no rosto e entrou.
 

 
Seu olhar percorreu rapidamente todos os amigos, enquanto um grito alegre e alguns assobios comemoravam sua chegada. Propositalmente ela cumprimentou um a um, deixando Miguel por último. De bermuda e sem camisa, ele esperou pacientemente sua vez de abraçá-la, enquanto analisava cada detalhe do corpo dela.
 
Finalmente eles estavam a poucos centímetros um do outro. Os dois sorriram e se abraçaram demoradamente. Ele a beijou na bochecha, ela retribuiu enquanto sentia seu corpo musculoso contra o seu e aquele perfume tão característico de Miguel, que não havia se apagado da sua memória mesmo depois de tanto tempo. Ele afagou-lhe os cabelos e os dois olharam-se nos olhos, esquecendo-se das outras pessoas presentes, que a esta altura entreolhavam-se surpresos com a cena romântica que presenciavam. Que saudade! Cochichou Miguel ao seu ouvido, enquanto sentia o adocicado perfume que ela exalava. E assim eles voltaram ao passado, como se nunca dele tivessem saído.

terça-feira, 25 de junho de 2013



Recomeço

E então decidiu que iria recomeçar. Mudaria de emprego, de casa, de país, de amor e de amigos. Seria uma nova pessoa, quem sabe até não mudaria de nome? Não assim no sentido prático da coisa, mas poderia inventar uma alcunha, um pseudônimo. Viver uma vida que não era a sua, inventar um personagem e brincar um pouco de ser outra pessoa.

Era um sonho antigo, uma vontade latente que ressurgia toda vez que algo estava mal. Para começar, um belo pedido de demissão, daqueles com direito a falar umas verdades ao chefe e a alguns colegas. Ah, que sensação maravilhosa a de não ter medo e falar tudo o que sente. E antes que houvesse um revide, virou as costas e saiu para não mais voltar.

Chegando em casa, disse que não o amava mais, fez as malas e saiu. Resolveu algumas coisas no banco e rumou para o aeroporto. Com a mala, um passaporte, algum dinheiro no bolso e amigos em quase todos os países do globo, verificou as próximas partidas, escolheu um lugar, fez uma rápida reserva em um albergue pela internet e aguardou no saguão até que chamassem seu voo.

Algumas pessoas ligavam desesperadas em seu celular, só atendia as muito íntimas, não queria dar explicações. Também não queria planejar nada durante um ano. Viveria um dia por vez, apenas isso e, por hoje, isso era suficiente.