sábado, 6 de julho de 2013

Meia Idade

Não, ele não queria voltar para casa e encontrá-la ali. Recusava-se a ouvir as mesmas reclamações, os mesmos comentários. Sim, todo dia era igual, terrivelmente igual, entediantemente igual. Ela o esperava em casa com seu corpo cheio embrulhado em um pijama velho e largo, lhe recebia com um toque de lábios, toque mesmo, toque rápido, porque aquilo nem se parecia com um beijo. Os cabelos desgrenhados, as unhas por fazer e o cheiro de alho nas mãos. Evidências de que ela havia passado o dia cuidando da casa e havia acabado de preparar o jantar.
 
 
Deveria se sentir feliz em ter em casa uma esposa que se preocupava com seu bem-estar e lhe preparava uma boa refeição. Uma boa mulher, como diriam alguns e afinal, na idade dele, o que mais poderia querer? Mas não, não estava feliz, estava inquieto, surpreendia-se sentindo inveja de casais se beijando na rua e das conversas dos estagiários que contavam suas aventuras amorosas. Quando foi que eles deixaram de se tocar? Em que momento ela parou de se enfeitar pra ele? Por que não passeavam, não planejavam, não viviam?
Gostaria de voltar no tempo, perceber estes sinais, lembrar da primeira vez em que não teve vontade de encontrar com a sua mulher. Talvez ali, naquele momento, poderia ter mudado o rumo do relacionamento, poderia ter feito força pra voltar a sentir vontade de vê-la, de levá-la pra jantar, de fazer sexo na mesa da cozinha.
Mas agora era tarde, sentia-se morrendo aos poucos, não passava de um velho. Talvez ela sentisse o mesmo, ela deveria sentir o mesmo, mas não deixariam que isso transparecesse, Levariam a vida assim, sem surpresas, como era de se esperar e como os outros esperavam que fosse.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Pele

Pele

 

Seria possível congelar aquele momento e guardar em algum lugar concreto a visão daquele corpo de Adonis? A memória não era confiável e ela queria se lembrar daquela cena pela vida toda. Queria poder rever os detalhes, os músculos do braço, o abdome definido, queria fazer uma estátua instantânea daquele torso.


Por um momento ele lhe pareceu uma escultura de Rodin, mas como vestia cueca, e era moderna demais, ela imaginou que estava diante de um anúncio de cuecas e quando ele colocou o jeans, sua imaginação a levou para um comercial do jeans mais descolado do mundo! Daquele tipo que tem os modelos seminus com cabelos molhados e olhos apertados para a câmera...
Na euforia daqueles pensamentos e ainda tentando descobrir uma maneira de parar o tempo, duas palavras se sobressaíam: Eu mereço! Era isso que sentia, que merecia ter sido possuída com vontade por aquele deus grego materializado, que merecia sentir toda a rigidez de cada músculo daquele corpo.
Era irresistível aquele sentimento, era só olhar pra ele que todas as células do corpo dela tremiam eufóricas, todas pedindo a pele, os poros, o suor dele. Se ficassem em silêncio poderiam ouvir o chamado ardente de cada pedacinho dela. E mais uma vez ela o apertou contra si, só pra sentir que não estava sonhando e para se inebriar um pouquinho mais com o cheiro e o toque daquela pele.