quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Só pra dizer...

Havia um súbito tom de desespero em sua voz quando ela finalmente lhe telefonou. Ainda se sentia magoada com todas as mentiras, toda a humilhação, todas as traições que ela fingiu não saber. Aquele telefonema tinha o objetivo de ser um tapa na cara dele, um tapa bem dado por todas as vezes em que ele a fez se sentir a mulher mais especial do mundo para em seguida desaparecer. E quando começou a falar, despejou no ouvido dele todos os anos de desrespeito, todas as amiguinhas mal explicadas, uma por uma, ela sabia de todas. Mas isso seria banal até, não fossem as promessas, as doces e infindáveis promessas sussurradas no ouvido enquanto os dois fodiam ao som de INXS.

Não, ela não iria lhe contar que quando ela estava sozinha em casa à noite, ainda escutava a sua respiração e sentia seu perfume em todos os lugares, nem iria dizer que tinha chorado duas horas seguidas no dia anterior ouvindo aquela música que ele dedicou pra ela em uma festa e ele também não saberia que aquele substituto que ela andava desfilando por aí não chegava nem aos pés dele na cama e ainda por cima não entendia suas piadas. Não, ele não faria ideia de que ela passava cada minuto do dia pensando no que fazer para esquecê-lo de vez e nem que aquela viagem repentina foi só um jeito de fugir dos pensamentos e da presença dele em cada canto. Também não queria que ele soubesse que estava torcendo contra essa nova namorada e que já sabia a ficha completa da moça.

Quando a encontrar, ele a verá linda e feliz, com um novo amor, com novos objetivos, novas conquistas, mas enquanto isso ela só queria dizer o quanto o odiava, um ódio que tentava esconder o profundo amor que ela ainda sentia.

segunda-feira, 21 de julho de 2014



Vício


O toque forte das mãos dele nas minhas coxas me fez esquecer as brigas e todos os outros homens. Enquanto ele me beijava e deslizava aquelas mãos imensas por todo o meu corpo, eu esquecia até de mim. Que jeito era esse que fazia meu corpo pedir mais e mais e nunca estar completamente saciado, até quando isso iria acontecer?
 

Resistir estava fora de cogitação, então a solução era se entregar e esquecer de todos os problemas que viriam depois, que sempre vinham depois de cada noite em que faziam amor. Amor? Não, aquilo não tinha nada de amor, era um vício louco impossível de frear. Trepar era a expressão que melhor definia o estado de euforia e êxtase que tomava conta de nós dois quando nos encontrávamos e eu sempre pensava que ainda não haviam inventado um verbo para aquilo. Era assim como uma avalanche, sem classificação, sem definição, sem nem saber o porquê sentíamos o que sentíamos. Desejo é pouco, vontade é leve, tesão é controlável, mas aquilo, aquilo era o mais puro e animal dos sentimentos.

E quando acabava, na verdade era só o começo, porque ele sempre vinha em busca de mais e por mais que eu tentasse, nunca conseguia fugir e se por alguns dias eu conseguisse não pensar, sempre vinham as crises de abstinência que eram tão doloridas quanto as de qualquer outra droga, doía o corpo que implorava pelo dele, inebriava a mente com as lembranças. Outros homens, outros países, outras ilusões, nada me fazia esquecer aquela mão na minha coxa, aquela boca nos meus seios, aquele olhar que me comia e me queria mais que tudo, que me queria pra sempre.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013


Saudade
Hoje eu acordei com vontade de te ver, de sentir suas mãos me fazendo carinho, seu olhar me prometendo mil coisas, sua boca me dizendo doçuras. Eu só desconfiava que saudade doía, não só na alma, essa eu já tinha sentido, mas no corpo também.  Dói o peito e a garganta, parece um nó lá dentro, chega a dar falta de ar. Será que era assim que os poetas morriam de amor? Porque se for, não era de amor, era de saudade.

 Saudade que você nem sabe o que significa, então talvez por isso não sinta, só sinta falta e falta não é saudade, saudade é maior, mais intensa, dolorida, como eu pude provar. Até parece um buraco, que só vai ficando mais fundo, até que a sua presença preencha, inunde, transborde e eu me afogue no que eu sinto por você.

terça-feira, 5 de novembro de 2013


Livre

Sete horas da noite de uma sexta-feira fria em São Paulo. Depois de uma semana exaustiva, a sensação de liberdade invade sua mente. O que fazer? Para onde ir? Ela se delicia em pensar que pode ir para onde quiser, fazer o que quiser, com quem quiser sem dar satisfações. Não há nada mais poderoso do que essa sensação e esta noite ela se sente poderosa, com sua jaqueta de couro, batom vermelho e salto alto.

Anda pelas ruas com um leve sorriso no rosto e atrai todos os olhares, os homens a desejam e as mulheres a admiram. Crianças a observam curiosas, quase que hipnotizadas por aquela boca vermelha e aquele balançar dos cabelos. Ela se dá conta feliz de que não tem uma dessas adoráveis e barulhentas criancinhas para cuidar, afinal cuidar dela mesma já dá trabalho o suficiente.
 

Mais alguns passos adiante e quase esbarra em um casal de adolescentes que se beijam apaixonadamente. Ela sorri, balança a cabeça e pensa em como são tolos por acharem que podem morrer de amor e que vão se amar assim pra sempre. Ela até gostaria de se sentir tão apaixonada a ponto de achar que é para sempre, mas há muito que não conseguia ter este sentimento. Sabia, da mesma maneira como sabe que o sol vai nascer amanhã, que aquele sentimento não durava, que uma rotina cheia de intimidade excessiva e pouco romantismo acabaria matando a paixão e a vontade de estarem lado a lado e sem que soubessem como, chegaria o momento em que seriam apenas bons amigos ou não se suportariam, mas definitivamente, não seriam mais namorados. Uma pena. Ela queria que todos os casais fossem como aqueles adolescentes.

Continuou sua caminhada, ainda sem destino certo. Talvez encontrasse alguém especial esta noite, talvez até se apaixonasse, não pra sempre, só por hoje.

sábado, 2 de novembro de 2013


Soco no estômago

Suas palavras me atingiram como um soco no estômago, senti meu coração parar por alguns segundos e eles pareceram eternos, sensação de morte, de ver a vida passar pelos seus olhos. A vida não, mas a curta parte dela em que estive com você. Será que você tem noção disso? O pior é que eu queria tanto te odiar, queria que você fizesse algo maldoso, infantil, idiota, só pra eu poder falar que eu estou melhor assim sem você, que eu vou encontrar uma pessoa melhor.

 

Agora só ficou a tristeza e a saudade, um aperto no peito cada vez que chega a hora que eu estava acostumada a falar com você, um sentimento de não saber o que fazer comigo. Mas a cada dia eu recolho um pedacinho meu, perdido por aí. Vou colar tudo de volta, como eu sempre faço, já fiz mil vezes, você não é o primeiro a me magoar. Só que é bom que você saiba, que eu sempre colo diferente, nunca fica igual, nem quero que fique, por isso, quando você me encontrar qualquer dia desses, não vai me reconhecer, não serei mais a mesma que te queria loucamente, talvez nem te ache mais tão divertido assim, nem tão bonito ou bom de cama...

Mas eu detesto histórias mal resolvidas. Então não se surpreenda se eu aparecer aí daqui alguns anos, só pra ter certeza que eu não te quero mais e principalmente, que você não me quer mais. Porque eu ainda duvido...

Sou eu quem você quer

Então é assim? Você não me quer mais... seria trágico se eu não soubesse que assim que passar essa empolgação por uma nova pessoa, você vai voltar correndo, cheio de saudades, louco de desejo. Sim, seria triste, se eu não tivesse certeza de que na primeira vez que você fizer sexo com ela, você vai pensar em mim. Vai lembrar de nós, de como somos bons juntos, de como nossos corpos se entendem. Por isso fico aqui bem calma, aguardando pela reprise, daqui um mês, dois, seis?
 

Mas confesso que ainda me surpreendo vendo você se afastar assim, quase que fugindo, tentando provar que não gosta tanto assim de mim, tentando desesperadamente se apegar a alguma outra pessoa que pode ter tudo a ver com você, mas não te faz tremer por dentro, nem desejar ardentemente sentir o cheiro, tocar a pele, o sexo. Isso te assusta não é? Assusta porque você não controla, assusta porque é tão intenso que você não consegue frear.

E vai ser até engraçado se um dia nós três nos encontrarmos. Será que ela vai sentir a tensão sexual entre a gente? Será que você vai conseguir disfarçar? Tenho certeza de que ela te trata com amor, mas ela consegue ser mais safada do que eu? Ela vai querer satisfazer todas as suas fantasias? Ou você não teve coragem de contar pra ela? Eu sei o que eu vou ter vontade de fazer se este dia chegar e ao contrário de você, não tenho medo de admitir, eu vou querer te deixar louco, explodindo de tesão, você sabe que é disso que eu gosto, quanto mais eu vejo você me querendo, mais eu te quero. E também vou querer dizer a ela: queridinha, quando ele trepa com você, é em mim que ele pensa.

sábado, 6 de julho de 2013

Meia Idade

Não, ele não queria voltar para casa e encontrá-la ali. Recusava-se a ouvir as mesmas reclamações, os mesmos comentários. Sim, todo dia era igual, terrivelmente igual, entediantemente igual. Ela o esperava em casa com seu corpo cheio embrulhado em um pijama velho e largo, lhe recebia com um toque de lábios, toque mesmo, toque rápido, porque aquilo nem se parecia com um beijo. Os cabelos desgrenhados, as unhas por fazer e o cheiro de alho nas mãos. Evidências de que ela havia passado o dia cuidando da casa e havia acabado de preparar o jantar.
 
 
Deveria se sentir feliz em ter em casa uma esposa que se preocupava com seu bem-estar e lhe preparava uma boa refeição. Uma boa mulher, como diriam alguns e afinal, na idade dele, o que mais poderia querer? Mas não, não estava feliz, estava inquieto, surpreendia-se sentindo inveja de casais se beijando na rua e das conversas dos estagiários que contavam suas aventuras amorosas. Quando foi que eles deixaram de se tocar? Em que momento ela parou de se enfeitar pra ele? Por que não passeavam, não planejavam, não viviam?
Gostaria de voltar no tempo, perceber estes sinais, lembrar da primeira vez em que não teve vontade de encontrar com a sua mulher. Talvez ali, naquele momento, poderia ter mudado o rumo do relacionamento, poderia ter feito força pra voltar a sentir vontade de vê-la, de levá-la pra jantar, de fazer sexo na mesa da cozinha.
Mas agora era tarde, sentia-se morrendo aos poucos, não passava de um velho. Talvez ela sentisse o mesmo, ela deveria sentir o mesmo, mas não deixariam que isso transparecesse, Levariam a vida assim, sem surpresas, como era de se esperar e como os outros esperavam que fosse.