Não,
ele não queria voltar para casa e encontrá-la ali. Recusava-se a ouvir as
mesmas reclamações, os mesmos comentários. Sim, todo dia era igual,
terrivelmente igual, entediantemente igual. Ela o esperava em casa com seu
corpo cheio embrulhado em um pijama velho e largo, lhe recebia com um toque de
lábios, toque mesmo, toque rápido, porque aquilo nem se parecia com um beijo. Os cabelos desgrenhados, as unhas
por fazer e o cheiro de alho nas mãos. Evidências de que ela havia passado o
dia cuidando da casa e havia acabado de preparar o jantar.
Deveria se sentir feliz em ter em
casa uma esposa que se preocupava com seu bem-estar e lhe preparava uma boa
refeição. Uma boa mulher, como diriam alguns e afinal, na idade dele, o que
mais poderia querer? Mas não, não estava feliz, estava inquieto, surpreendia-se
sentindo inveja de casais se beijando na rua e das conversas dos estagiários
que contavam suas aventuras amorosas. Quando foi que eles deixaram de se tocar?
Em que momento ela parou de se enfeitar pra ele? Por que não passeavam, não
planejavam, não viviam?
Gostaria de voltar no tempo,
perceber estes sinais, lembrar da primeira vez em que não teve vontade de
encontrar com a sua mulher. Talvez ali, naquele momento, poderia ter mudado o
rumo do relacionamento, poderia ter feito força pra voltar a sentir vontade de
vê-la, de levá-la pra jantar, de fazer sexo na mesa da cozinha.
Mas agora era tarde, sentia-se
morrendo aos poucos, não passava de um velho. Talvez ela sentisse o mesmo, ela
deveria sentir o mesmo, mas não deixariam que isso transparecesse, Levariam a
vida assim, sem surpresas, como era de se esperar e como os outros esperavam
que fosse.

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